Autores: Marcela de Sena M. Silva e Pietro Fernandes Coelho Santos
Data da publicação: 201/08/2025
No cenário econômico mundial, dois gigantes – China e Estados Unidos – têm protagonizado um embate tarifário que vem abalando o sistema internacional e comprometendo a ordem global vigente. Questões geopolíticas e econômicas são usadas para justificar esse confronto. Assim, os dois países disputam por: liderança industrial – cenário no qual a China vem se colocando como protagonista; moeda(s) a ser(em) usada(s) no sistema financeiro internacional – em que a questão da desdolarização levantada principalmente pelos BRICS é vista como ameaça pelo governo estadunidense; competição tecnológica entre as big techs chinesas e norte-americanas. Dessa forma, o presente informe aborda as políticas tarifária do Presidente Donald Trump com respeito à República Popular da China, bem como suas reações e estratégias.
Guerra tarifária: China em foco
Inicialmente, entre fevereiro e março do presente ano, a relação comercial conflituosa entre China e Estados Unidos sofreu uma escalada após medidas unilaterais adotadas por Washington. No dia 1º de fevereiro, o presidente Donald Trump assinou a Executive Order 14195, declarando emergência nacional para combater o tráfico de fentanil. Esta ordem impôs uma tarifa adicional de 10% sobre todas as importações chinesas a partir de 4 de fevereiro e eliminou a isenção de minimis para pacotes de até US$800. No mesmo dia em que a tarifa estadunidense entrou em vigor, a China anunciou medidas retaliatórias, a serem oficialmente implementadas no dia 10 de fevereiro. Elas incluíram a aplicação de tarifas sobre a importação de produtos dos EUA da ordem de 15% sobre carvão e gás natural liquefeito (GNL) e 10% sobre petróleo bruto, máquinas agrícolas e veículos de grande porte.
No mesmo mês, Trump assinou um memorando mobilizando o Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos (CFIUS) para restringir investimentos chineses em setores considerados estratégicos, como tecnologia, infraestrutura, saúde e energia. O uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) marcou um precedente para impor tarifas amplas e restringir investimentos estrangeiros de maneira coordenada.
Já no início de março (4), o presidente Trump assinou um decreto que dobrou de 10% para 20% as tarifas sobre todas as importações chinesas, ampliando significativamente o impacto sobre o comércio bilateral. Em resposta, a China anunciou, no dia 10 de março, medidas retaliatórias para importações agropecuárias norte-americanas: uma tarifa de 15% passaria a ser aplicadas para frango, trigo, milho e algodão, enquanto outra, de 10%, passaria a ser aplicada no caso da soja, sorgo, gado, produtos agrícolas e lácteos.
Caos instaurado
Em abril, a disputa comercial entre Estados Unidos e China atingiu seu ápice, com uma escalada sem precedentes de tarifas e medidas econômicas duras de ambos os lados. No dia 2 de abril, o presidente Trump declarou uma nova emergência nacional vinculada ao déficit comercial e anunciou o chamado “Liberation Day”. Este implicava na imposição de uma tarifa básica de 10% sobre quase todas as suas importações, exceto nos casos do Canadá e México, além de tarifas adicionais, específicas por país, que foram programadas para entrar em vigor a partir do dia 9 de abril.
No mesmo mês, os EUA ampliaram as medidas ao impor uma tarifa de 25% sobre todos os automóveis e veículos estrangeiros importados. Em reação, a resposta chinesa (dia 4) consistiu em retaliar com uma tarifa de 34% sobre todos os bens americanos, além de restringir exportações de terras raras e incluir diversas empresas dos EUA em uma lista de “entidades não confiáveis”.
A tensão aumentou quando Trump ameaçou elevar ainda mais as tarifas para até 50%, caso a China não revertesse suas ações até o dia seguinte. Em meio a isso, Pequim respondeu em 9 de abril com a intensificação de tarifas retaliatórias, chegando a 84% sobre produtos americanos, o que foi seguido, no mesmo dia, por aumento das tarifas americanas sobre produtos chineses para 125%, que posteriormente foram ajustadas para 145%.
Adiante, em 11 de abril a China reagiu novamente, elevando suas tarifas a 125% e impondo proibições sobre importações de produtos culturais e serviços americanos. Nesse contexto, o governo dos EUA anunciou uma exceção estratégica para eletrônicos como celulares, chips e computadores, que ficaram sujeitos apenas a uma tarifa de 20%.
Apesar do clima de confronto, em 17 de abril Trump afirmou esperar um acordo com a China, sem apresentar detalhes concretos. Acordo este que era necessário dado que os impactos econômicos começaram a se manifestar de forma visível: nos EUA, grandes varejistas americanos alertaram, em 21 de abril, sobre aumentos de preços e riscos de escassez de produtos nas semanas seguintes, enquanto que, na China, a atividade industrial sofreu retração significativa, com o índice PMI caindo para 49 – a contração mais rápida em 16 meses, refletindo o peso da escalada tarifária sobre o setor manufatureiro.
A conta começa a pesar
No mês seguinte, os EUA reduziram suas tarifas sobre produtos chineses de 145% para 30%. Por sua vez, a China baixou suas tarifas de 125% para 10%, o que levou à oficialização de uma trégua de 90 dias em 12 de maio. Em sequência, a Corte Internacional de Comércio dos EUA decidiu por suspender os chamados “Liberation Day tariffs”, ao considerar que o presidente Donald Trump excedeu sua autoridade ao impor as tarifas, sob a lei IEEPA, o que gerou incerteza jurídica apesar do recurso em andamento.
Ao fim de maio, ressurgiram disputas sobre exportações de terras raras, com Trump acusando a China de violar o Acordo de Genebra ao atrasar licenças essenciais para a indústria americana. No mesmo mês, as importações americanas via contêineres vindas da China caíram 28,5%, o maior recuo desde a pandemia, impactando especialmente os portos de Los Angeles, Long Beach e Nova Iorque.
Ceder ou não ceder?
No mês de junho, Trump e Xi Jinping conversaram por telefone e concordaram em continuar as negociações para reduzir tensões e discutir disputas envolvendo minerais estratégicos. Já em 11 de junho, Trump anunciou um acordo de trégua: os EUA aplicariam uma tarifa fixa de 55% sobre importações chinesas, composta por uma taxa básica de 10%, 20% adicionais, devido ao fentanil, e 25% de tarifas anteriores. De sua parte, a China manteve tarifas de 10% sobre produtos norte-americanos. Nos dias seguintes, 26 e 27, houve avanço sobre as terras raras, com acordo para agilizar exportações de ímãs e minerais estratégicos da China aos EUA, incluindo licenças temporárias para montadoras americanas, desbloqueando um impasse.
Alternativas adotadas por Pequim – para além do econômico, mas objetivando-o
Por fim, é perceptível que, em meio à guerra tarifária, a China adotou uma postura de diplomacia cautelosa e diálogo com os Estados Unidos, enfatizando a importância de relações econômicas mutuamente benéficas. O Ministério do Comércio chinês alertou contra ações que possam prejudicar os consensos firmados nos diálogos de Londres e Genebra, defendendo negociações “igualitárias, respeitosas e mutuamente vantajosas”, além de que instou os EUA a corrigirem o que classificou como uma sequência de “erros” provocados pelas tarifas recíprocas, que chegaram a 145%.
No campo doméstico, as autoridades chinesas optaram por focar em estímulos econômicos internos, tanto monetários quanto fiscais, buscando ampliar o consumo local e diversificar seus mercados de exportação para reduzir a dependência dos Estados Unidos. Em decorrência, o yuan chinês se manteve forte e investimentos foram feitos em medidas para amortecer os impactos externos, com a meta de sustentar um crescimento anual em torno de 5%. Paralelamente a isso, o país intensificou suas alianças e ampliou sua presença internacional, fortalecendo negociações com países asiáticos como Vietnã, Malásia e Camboja, e estreitando laços com blocos econômicos como BRICS e União Europeia.
Em sua retórica, Pequim se posiciona como defensora do multilateralismo, convidando empresas estrangeiras a continuarem investindo na China e se apresentando como uma alternativa estável diante da incerteza causada pelos EUA. Também reforçou parcerias com Japão e Coreia do Sul. Além de lançar alertas a aliados e parceiros comerciais para que evitem acordos tarifários bilaterais que possam prejudicar seus interesses.
Referências
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