Autoras: Giovanna Bernardes dos Reis1 e Geovana Ávila Pinheiro de Azevedo2
Data de publicação: 19/10/2026
- A África como campo estratégico de cooperação
A expansão da China dentro do continente africano é o maior exemplo do movimento de cooperação da África com o restante do mundo, marcando um crescimento significativo nos últimos anos. Mantendo-se na posição há 15 anos, a China é o maior parceiro comercial da África. O comércio sino-africano obteve um recorde de US$282,1 bilhões em 2023, e se manteve em constante crescimento nos meses seguintes. Inicialmente, a cooperação e os investimentos eram concentrados nos recursos naturais disponibilizados no continente africano, como petróleo e minério. Entretanto, ao longo dos anos, os investimentos se expandiram e foram destinados a outras importantes áreas de desenvolvimento, a citar a infraestrutura (estradas, ferrovias, porto, redes elétricas etc). O fluxo anual de Investimento Direto Estrangeiros (IDE) da China para a África aumentou de US$74,81 milhões em 2003 para US$4,23 bilhões em 2020.
INVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO NA ÁFRICA – COMPARAÇÃO EUA X CHINA (BILHÕES DE DÓLARES) 3

INVESTIMENTO CHINÊS NA ÁFRICA (BILHÕES DE DÓLARES)4

- O investimento dos países do BRICS na África
Nos últimos anos, os países do BRICS (Brasil, Índia, China e África do Sul) aumentaram tanto o seu investimento financeiro quanto o seu papel político na África por meio de instrumentos multilaterais, como NDB (New Development Bank), financiamentos bilaterais, investimentos e contratos comerciais, concentrando-se em infraestrutura, energia, mineração e conectividade digital — setores que são prioridade para o desenvolvimento dos países africanos. A presença desses países dá oportunidades reais para o crescimento e transferência tecnológica, ao mesmo tempo que mostra riscos de uma possível dependência entre os parceiros.
O New Development Bank (NDB) passou a funcionar em 2016 pela aliança do BRICS, como um canal para o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento do Sul Global, incluindo a África. O projeto tem ampliado sua carteira e vem sendo utilizado por membros do BRICS para financiar grandes projetos. Ademais, os outros investimentos feitos pelos países membros vem por meio de bancos estatais, linhas de crédito, concessões e empresas chinesas de mineração e energia, pelo interesse estratégico de acessar a matérias-primas, rotas marítimas e o mercado consumidor, formando, assim, grandes cadeias de valor.
A dinâmica de investimento dos membros no continente africano é feita por setores dos que coincidem com os prioritários africanos. A China é apontada como a principal investidora em escala agregada, com um foco renovado (2023–2024) em grandes projetos de infraestrutura (ferrovias, portos), energia (incluindo renováveis) e telecomunicações. A Índia tem expandido sua presença através de linhas de crédito e investimentos em TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação), agricultura e energia renovável, buscando ir além do comércio de commodities e fortalecer cadeias de suprimento e conectividade. A Rússia concentra sua agenda em energia, mineração e segurança, intensificando acordos comerciais e parcerias estratégicas. O Brasil e a África do Sul, por sua vez, possuem um papel de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) mais modesto. Eles atuam em nichos como mineração, agroindústria e serviços, sendo a África do Sul um importante portal de entrada regional. Os setores de investimento predominantes em geral incluem Infraestrutura (muito financiada pelo NDB e linhas de crédito bilaterais), Energia e Mineração, Telecomunicações e Digital (como cabos submarinos e centros de dados) e o Setor Financeiro e de Serviços (como bancos e fintechs).
ESTOQUE DE INVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO DA CHINA NA ÁFRICA POR SETOR (BILHÕES DE DÓLARES)56
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- O unilateralismo tarifário dos EUA na África
O aumento de tarifas pelos Estados Unidos, sob a administração Trump, tem impactos diretos no comércio internacional que vão muito além do simples custo adicional: ele mina previsibilidade, gera desvio de comércio e fragiliza significativamente parcerias tradicionais, com efeitos ainda mais notórios para países em desenvolvimento. As tarifas elevadas de 15% a 30% que têm sido impostas a exportações de nações africanas (como África do Sul, Argélia e Tunísia) afetam diretamente setores como têxtil, hortifrúti e automotivo, uma vez que aumentam os custos para exportadores africanos e tornam seus produtos menos competitivos nos EUA. O tarifaço interrompe cadeias previsíveis de comércio, dá um duro golpe na geração de empregos — como no Lesoto, onde a indústria têxtil sofreu perdas expressivas — e obriga países a buscarem mercados alternativos.
TARIFAS AMERICANAS NA ÁFRICA 7

No caso específico dos países africanos, o impacto foi expressivo. A iniciativa americana, especialmente com a não-renovação do acordo AGOA (African Growth and Opportunity Act) e a imposição de tarifas altas em setores-chave, pode reduzir significativamente as exportações de um continente que tradicionalmente utilizava o mercado americano para crescimento econômico. Para especialistas, a reação africana tem sido o fortalecimento de laços comerciais com outras potências, em especial a China, que se posiciona como alternativa para absorver produtos e investimentos que dos EUA se afastam. Tal dinâmica mostra uma alteração estratégica nas parcerias comerciais africanas, as quais tendem a diversificar seus mercados para compensar a perda do acesso preferencial ao mercado norte-americano, e reflete, sobretudo, um enfraquecimento das relações comerciais tradicionais em decorrência do protecionismo vigente.
- BRICS e a consolidação da cooperação sul-sul: perspectivas futuras
O cenário internacional atual é definido por duas dinâmicas que empurram os países em desenvolvimento para uma maior colaboração horizontal. Em primeira instância, o protecionismo americano, caracterizado pelo uso de instrumentos de comércio (como tarifas) para alcançar objetivos políticos e de segurança nacional (geoeconomia). Nessa conjuntura, o aumento das taxas tarifárias dos EUA e o abandono do sistema global de comércio baseado em regras geram uma incerteza que obriga outras nações a buscarem alternativas fora das estruturas tradicionais, minando consideravelmente a confiança no sistema anterior. Em segundo lugar, a contestação da liderança americana abre espaço para a emergência de um cenário multipolar. Isso porque a retração dos EUA projeta a possibilidade de um mundo no qual potências médias e emergentes, como os membros do BRICS, assumam um maior protagonismo — e a CSS se torna, assim, o principal artifício para que o grupo não apenas reaja às pressões externas, mas também exerça, de maneira ativa, sua influência na definição de como será feita a governança global futura.
A criação do NDB, mencionada anteriormente, é uma resposta direta à necessidade de mobilização de capital para projetos de desenvolvimento sustentável e infraestrutura em países em desenvolvimento — sendo essa uma demanda que não era plenamente atendida pelas instituições financeiras multilaterais tradicionais. O banco, ao oferecer uma alternativa para o financiamento, possui potencial para diminuir a dependência do Sul Global em relação ao crédito internacional sujeito às flutuações e às condicionalidades políticas do sistema liderado pelo Ocidente. Além disso, a ampliação da base de membros do NDB – com a adesão de países como Emirados Árabes Unidos e Egito, além do interesse de outros como a Argélia e o Uruguai, é um bom sinal da atração do bloco em um mundo multipolar. Muito embora a adesão ao BRICS não garanta automaticamente a entrada no NDB, esse movimento demonstra uma crescente capacidade do grupo de ampliar sua influência e mobilizar recursos entre as potências emergentes.
REFERÊNCIAS
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- giovanna.reis1@ufu.br
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com experiência em liderança estudantil, projetos de extensão e gestão. Suas pesquisas concentram-se em política internacional, esfera pública brasileira, as relações entre gênero e raça, e a representatividade das mulheres na história política contemporânea.
http://lattes.cnpq.br/7344511081172239 ↩︎ - geovanavilap@gmail.com
Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atualmente, atua como coordenadora discente do Observatório de Economia Política Internacional (OEPI-UFU) e do Observatório de Memória e Reparação (OMR-UFU). Suas principais áreas de pesquisa e interesses acadêmicos concentram-se em economia política, direito internacional crítico e direitos humanos, com ênfase na análise da competição global por minerais críticos e nos usos do passado atrelados à ditadura empresarial-militar brasileira. https://lattes.cnpq.br/5180271500389067 ↩︎ - https://app.flourish.studio/visualisation/25967321/edit ↩︎
- https://app.flourish.studio/visualisation/25966949/edit ↩︎
- https://app.flourish.studio/visualisation/25967522/edit ↩︎
- https://app.flourish.studio/visualisation/25986007/edit ↩︎
- https://app.flourish.studio/visualisation/25522726/edit ↩︎
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